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    Enviado em abril 27th, 2009

    Escrito por Micael Silva

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    O Enorme Peso da Dúvida

      Dúvida (Doubt, USA 2008) de John Patrick Shanley. Com Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Viola Davis, Alice Drummond, Joseph Foster, Mike Roukis, Paulie Litt, Audrie Neenan e Lloyd Clay Brown.

    Nos corredores da escola católica St. Nicholas, no Bronx dos anos 60, a figura da diretora Irmã Aloysius (Meryl Streep) é intimidadora. Ela é a personificação da disciplina, do rigor e da intransigência. As crianças a temem, as freiras a respeitam com subserviência. Não que ela não possua sentimentos, como vemos quando veladamente oculta o fato de que uma das irmãs está perdendo a visão, para evitar que ela seja afastada, porém, seu olhar parece estar sempre buscando o defeito das coisas, um erro, um passo em falso, e sua prontidão em punir, sua paixão pela ordem e seu zelo excessivo a torna uma figura perturbadora e desagradável.

    Em contrapartida, o padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) é um sujeito cordial, compreensivo e amável. Mas suas idéias e pontos de vista modernos o levam em rota de colisão com a diretora da escola, em um embate que envolverá não só aspectos morais, mas a busca pela verdade e as conseqüências de pecados mortais.

    Tudo gira em torno de uma suspeita levantada pela jovem professora Irmã James (Amy Adams) a respeito da conduta do padre Flynn para com o aluno Donald Miller (Joseph Foster). Irmã James é jovem, ingênua e faz tudo para agradar seus superiores. Como Irmã Aloysius já havia lhe colocado em alerta para conferir qualquer coisa estranha, ela reporta suas suspeitas, embora inconclusivas e carentes de provas.

    O primeiro confronto entre Aloysius e padre Flynn não demora a acontecer, com a testemunha de Irmã James, confusa e indecisa entre ambos. Contrariado com o que houve, padre Flynn nega que tenha molestado o garoto e apresenta uma justificativa plausível, o que não é aceito por Aloysius, que decide empreender uma cruzada cega para confirmar sua verdade.

    Embora o filme jamais apresente qual seja a verdade final sobre os fatos, levanta vários questionamentos que permanecem em nossa mente por muito tempo. O primeiro, evidentemente, repousa na questão do perigo de macular a honra das pessoas mediante a divulgação de suspeitas, histórias sem confirmação, fofocas, boatos infundados. Como bem colocado pelo sermão do padre Flynn, através da metáfora das penas ao vento. Ninguém jamais conseguirá desfazer os prejuízos de ter manchado a reputação de outro, de ter destilado veneno através de mentiras, de ter perpetuado sofismas a respeito da conduta e dignidade de outra pessoa.

    Por outro lado, a Irmã Aloysius pode ser vista como defensora da verdade, já que sutilmente o padre Flynn demonstra ter sofrido crises de fé, tempos de dúvidas na caminhada, como ele mesmo cita em seu primeiro sermão, e que esta dúvida tornou-se um vínculo poderoso, como se estivesse carregando a solidão de uma dor mantida em segredo. Muitos poderão dizer que há algo errado no passado da Flynn e que onda há fumaça há fogo. No entanto, até que ponto é válida a cruzada pela virtude da Irmã Aloysius? Será que o zelo pode justificar a repressão, o ódio, a intolerância, o fogo da “santa inquisição”? Será que é lícito dar dois passos para longe de Deus, a fim de comprovar uma tese, uma hipótese? Afinal, todos nós temos nossos pecados, e não estamos habilitados a julgar uns aos outros, como dito pelo padre, “Eu tive meus pecados mortais, mas Deus já me absolveu”.

    Mudando de assunto, não deixa de ser assustador o pragmatismo da mãe do garoto Donald Miller, que reconhecendo que o garoto tem problemas, prefere ignorar as suspeitas da Irmã Aloysius, a fim de garantir um futuro melhor para seu filho. A ela não interessa a verdade, desde que isso não venha a prejudicar a educação do menino. Seja qual for o problema, ele poderá suportar até junho. Aliás, o medo da intolerância volta a ser tratado nessa passagem, pois a Sra. Miller (Viola Davis) parece temer muito mais quanto à reação do pai, que poderia matar o garoto se descobrisse por certo acerca da homossexualidade.

    Por fim, o filme traz o enorme peso da dúvida sobre os personagens, e de certo modo, ao próprio espectador. As atitudes de cada um tem suas conseqüências, mas quando remanesce a dúvida quanto ao acerto e veracidade dessas atitudes, a angústia e o tormento dilaceram a alma e consomem por dentro. Porém, o vínculo desse desespero pode ser tão forte, que pode converter-se em uma virada de fé, conduzindo ao caminho de arrependimento e mudança.

    Com interpretações magníficas e um texto rico em diálogos bem construídos e simbolismo eficazes, Dúvida é um filme excelente para ver e refletir sobre as dúvidas que nos prendem e as atitudes que tomamos sem a certeza da verdade, além de temas como intolerância, honra, virtude e fé.

    Este conteúdo foi enviado em segunda-feira, abril 27th, 2009 às 14:04 e está na categoria Artigos. Você pode acompanhar as respostas através do RSS 2.0 feed. Você pode deixar uma resposta, ou fazer um trackback de seu website
  • 2 Comentários

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    1. markeetooNo Gravatar
      abr 27th

      Excelente filme que inaugurou nosso Cineclub R15. Esse filme dá muito pano pras mangas, rendendo horas de discussões.
      O que me chamou muito a atenção é que nos identificamos tanto com a irmã Aloysius quanto com o padre Flynn, eu pelo menos senti isso. Filmaço recomendado!!!

    2. (marta)No Gravatar
      abr 29th

      eu adorei esse filme, adorei ter ficado batendo cabeça depois pensando..pensando e pensando. é impressionante como podemos tirar liçoes e discussoes dele..
      totalmente recomendado pra qm aindanao viu!

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