A Diversão Como Sofrimento
“O time do Arsenal que vi naquela tarde vinha fracassando espetacularmente havia algum tempo. Na realidade eles não conquistavam nada desde a Coroação, e aquele fracasso abjeto e incontestável simplesmente esfregava mais sal nos estigmas da torcida. Muita gente à nossa volta tinha a expressão de quem já viu todos os jogos de todas as temporadas perdedoras. O fato de eu estar me intrometendo num casamento que havia azedado de uma maneira desastrosa emprestava à minha tarde uma lubricidade particularmente excitante: um dos parceiros corria para lá e para cá tentando pateticamente agradar o outro, que virava o rosto para a parede, enojado demais para ver aquilo. Os torcedores que não tinham lembrança dos anos 30, quando o clube ganhara cinco campeonatos e duas Taças da Liga, lembravam-se dos Compton e de Joe Mercer, apenas uma década antes; o próprio estádio, com suas belas arquibancadas em estilo art déco e seus bustos de Jacob Epstein, parecia desaprovar o bando atual tanto quanto meus vizinhos de arquibancada.
Eu já comparecera a eventos públicos antes, é claro; fora ao cinema e à pantomina, e fora ver minha mãe cantar no côro de White Horse Inn, na Prefeitura. Mas aquilo era diferente. As platéias de que eu participara até então haviam pago para se divertir, e embora de vez em quando se notasse uma criança impaciente ou um adulto bocejando, eu nunca observara rostos contorcidos de fúria, desespero ou frustração. A diversão como sofrimento era uma idéia inteiramente nova para mim, e parecia ser algo que eu vinha aguardando.”
Esse é um trecho do livro Febre de Bola, de Nick Hornby. Embora tenha me identificado com o sofrimento de torcer por time em longo tempo de insucessos, como torcedor do Vasco, sem títulos desde 2003 e atualmente na Série B do Brasileiro, não pretendo escrever estritamente sobre futebol.
O que chamou minha atenção, nesta passagem do livro em particular, é a curiosa questão do divertimento que não diverte, ou o entretenimento que enfurece, que chateia, que deprime, mas ao mesmo tempo atrai a pessoa de forma inexorável.
O exemplo do futebol é facilmente visualizável. O sujeito gasta seu tempo, seu dinheiro, sua energia, sua voz e dificilmente tem retorno. Mesmo que seu time esteja em boa fase, sempre há momentos que ao invés de sorrir, de descontrair, de se divertir propriamente, o cidadão apenas xinga, esbraveja, esculacha, amaldiçoa os jogadores, o técnico, o juiz, o comentarista ou até mesmo a mãe de qualquer um dos envolvidos. Algumas vezes, a importância do jogo restringe-se meramente a saber quem será zoado na segunda-feira: você ou o colega rival. A questão lúdica do futebol, o barato de estar vendo um bom jogo, bem jogado, o drible, o lançamento, a defesa, a tática, tudo isso acaba sendo periférico em função do divertimento em passar desespero, ficar com raiva ou se frustrar com o resultado. Porque, por maior que seja, o fiasco, o torcedor sempre estará lá outra vez, acompanhando o time com fidelidade, para sofrer mais um pouquinho. E nem vou gastar tempo falando do pseudo-torcedor que vai ao estádio para brigar porque já penso que seja uma doença social, que nada tem a ver com o lazer de torcer.
Aliás, isso não existe só no futebol. Pensando sobre o assunto, me lembrei de pessoas que adoram cinema, mas para elas, nenhum filme presta. É um paradoxo misterioso. Não suportam o enredo, nem os atores, mas simplesmente não podem deixar de ver. Nem que seja pra criticar os clichés, apontar os furos, sei lá. Por mais que haja pontos fortes, parecem ser as falhas que compõem o entretenimento.
O mesmo pode ser dito da música, da arte, de tudo. É incrível, mas para o ser humano, diversão muitas vezes é um crime que você não pode admitir. Alguns confessam baixinho, chamam de guilty pleasure, mas amam sofrer pelo lazer, gostam é do lado enjoado da coisa, de reclamar um tantinho, mas perguntem se querem abandonar aquele odiado hobby. Jamais.
Não quero ser mal interpretado. Mente crítica é um achado nos nossos dias e todos devem divertir-se com o cérebro ligado, sempre atento para separar o joio do trigo, afinal, entretenimento hoje é uma indústria, e vende, muitas vezes, produtos de qualidade duvidosa. O que pretendo aqui, é instigar o leitor para que indague a si mesmo. Será que andamos muito ranzinzas? Será que a essência de aproveitar o lazer e a diversão não está sendo contaminada por uma rabugentice, que passou a ser o nosso real divertimento?
Agora se você for um aborrecido assumido, que acredita que o fator de masoquismo é que exerce uma diversão de verdade, então sugiro que se divirta sozinho, que guarde um pouco dessa divertida fúria para curtir sozinho. Por quê, você pergunta? É que pra muitos, esse é momento de felicidade, de descontração, de abstrair, e ficam um pouco irritados pelo fato de que você se divirta ficando irritado. E pra essas pessoas anormais, isso não é nem um pouco divertido.
Mas quer saber, eu odiei escrever tudo isso, e não é que me senti divertido com isso…




Algo a refletir: qual a essência do prazer no homem? Seria ver o lado negativo das coisas? Se alegrar com o sofrimento alheio, a dor como recompensa diária para a felicidade pessoal?
Muito bom os questionamentos. Parabéns!
Gente ranzina é chato demais. gente que acha defeito em tudo e quer achar perfeição em tudo. É claro que não vai achar.
Gostei do texto. A última frase foi genial rs
Essa postura de reagir ao contrário do objetivo proposto, que é de se divertir, acontece mesmo e muito. Eu vejo tdos os dias gente que está vendo algo incrível, mas já vão comparando com outras coisas que já viu, não curtindo nem aproveitando em nada aquele momento ímpar em sua experiência de vida. Não quero ser assim nunca!