• Artigos, Reflexões

    Enviado em agosto 15th, 2009

    Escrito por Micael Silva

    Tags

    Um Pai. Um Filho. Três Filmes por Semana.

    Ainda não tive essa experiência, mas talvez um dos maiores desafios na vida de um homem seja criar e educar filhos. Acredito que não há uma fórmula para isso, embora haja diversos livros escritos sobre o assunto, aconselhando e instruindo os pais de todas as gerações.

    O escritor David Gilmour, em seu livro O Clube do Filme, encontrou uma forma inusitada para educar seu filho, Jesse. Percebendo a falta de interesse do filho em ir à escola, David tomou uma decisão inesperada: permitiu que o garoto, um adolescente, deixasse a escola, lhe dando em troca apenas duas obrigações, ficar longe das drogas e assistir filmes com o pai, cada um deles escolhido criteriosamente por ele. Essa seria a única forma de educação que Jesse teria.

    À primeira vista, pode-se discutir se permitir que um adolescente abandone a escola é uma decisão sábia. O próprio David parece ter lutado internamente com esse questionamento. A educação formal é importante, mas não seria a única forma de ensinar. Em nossa cultura é estranho pensar nisso, eu não conheço nenhuma pessoa que, possuindo recursos e avaliando suas chances, tenha deliberadamente escolhido “pular fora” do colégio. Digo, conheço muita gente, quando criança ou adolescente, que teve essa vontade, mas jamais vi pais que dessem aval à evasão escolar espontânea. Geralmente, pensamos em situações como essa associadas à pobreza e marginalidade. Porém, o caso do Clube do Filme é outro, e por ser uma história real, nos leva a refletir se a educação formal e padronizada é realmente o melhor para todos os tipos de pessoa.

    O livro, em primeira instância, é excelente para os amantes de cinema. A cada filme escolhido, recebemos várias informações e curiosidades, aspectos técnicos, observações críticas, além de ser uma ótima maneira de obter dicas sobre filmes que ainda não vimos, verdadeiros tesouros escondidos. Assim, quando ouvimos sobre Marlon Brando, Truffaut, James Dean e outros, nós, cinéfilos, simplesmente nos sentimos atiçados pelo conteúdo, empolgados como se estivéssemos numa bate-papo sobre nossos artistas favoritos.

    Além disso, a seleção dos filmes não é puramente intelectual. Há nouvelle vague, Fellini e tudo mais, mas há espaço para filmes despretenciosos também, como Robocop, Instinto Selvagem ou Cães de Aluguel, assim como filmes do tipo “guilty pleasures” (prazeres culpados), que são aqueles reconhecidamente ruins, mas que você gosta e assiste secretamente.

    Entretanto, a história nos leva mais além. Atravessando todo o período da adolescência de Jesse, somando-se à crise de meia-idade de David, desempregado e preocupado com o futuro, o grande trunfo do livro reside na dinâmica de pai e filho. São as experiências, as conversas, os dilemas, pequenos detalhes do cotidiano que enriquecem a leitura e refletem o nosso próprio relacionamento com os pais (ou com os filhos, se for o caso).

    Afinal, o livro Clube do Filme é menos sobre filmes, embora funcionem como pano de fundo, e mais sobre amizade de pai e filho, construir pontes, cultivar relacionamentos, e, nesse sentido, é maravilhoso para qualquer pessoa, cinéfila ou não, pois escancara a realidade de que, enquanto o tempo vai passando, muitos de nós está perdendo momentos preciosos de companhia dos nossos entes familiares, o que nos leva a desejar qualquer pretexto, seja futebol, jardinagem ou filmes, para se aproximar de pai, mãe, avô, tio, o que seja, pois não importa o que somos ou o que desejamos ser, não há nada que substitua isso, de modo que uma pessoa pode usufruir do melhor ensino do mundo na melhor escola do país, mas se não puder conviver com sua família, perderá o melhor que a vida pode oferecer.

    Este conteúdo foi enviado em sábado, agosto 15th, 2009 às 14:49 e está na categoria Artigos, Reflexões. Você pode acompanhar as respostas através do RSS 2.0 feed. Você pode deixar uma resposta, ou fazer um trackback de seu website
  • 3 Comentários

    Dê uma olhada nos comentários que foram feitos:

    1. markeetooNo Gravatar
      ago 18th

      Hehehe interessante isso.
      Muitos pais e educadores devem querer crucificar esse David GIlmour, né? Além de ter feito um negócio desse, ainda escreve um livro pra dar idéia pros outros rs.
      Mas realmente deve ser uma experiência interessante. Vou educar meu filho só com música hahaha.

    2. Marilena SilvaNo Gravatar
      set 15th

      O markeetoo é muito engraçadinho,né?!hehehe, Mas, é realmente muito interessante o tema. Eu amo estar na companhia dos meus filhos, marido, mãe,pai, irmãos, sobrinhas… família é realmente tudo de bom!!!

    3. manoeldcNo Gravatar
      set 28th

      Muito interessante, mais pelo estímulo de quem escreveu o texto, que nos deixa com gostinho de água na boca de assistir o filme. Gosto dessa idéia dos filhos aproveitarem o convívio com os pais, não como meramente pais formais, mas principalmente como amigos verdadeiros.

  • Deixe uma resposta

    Queremos saber o que você pensa.

  • Nome (necessário):

    Email (necessário):

    Website:

    Mensagem: