• Destaques, Reflexões

    Enviado em dezembro 22nd, 2009

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    NATAL – Encarnação Vivencial

    O mais apurado entendimento humano sobre encarnação ainda deixa a maior manifestação da história da salvação como uma imagem turva, distorcida e enevoada.

    Assevero isso, sem nenhuma pretensão a não ser do sentimento de plena reverência diante de um mistério inalcançável pela mente humana, o desiderato do DEUS Todo-Poderoso, criador do universo, O Incorpóreo, O Invisível, O Incontido, decidir viver nessa terra e ser encerrado em um corpo humano, estigmatizado a morrer desde que nasceu, e a ser confinado em um mundo hermeticamente fechado por paredes de sombras e medos, e a respirar o ar viciado que o pecado impregnou em nosso poluído mundo de homens perdidos.

    Jesus foi engendrado no útero de Maria, milagre do Espírito Santo, macrogameta feminino sem microgameta masculino, feto formado, massa uniforme, o incontido preso na matéria deteriorada, um ser tremulante no vácuo, flutuando na escuridão do líquido amniótico dentro de Maria, anexado à placenta e dependendo exclusivamente dela, e impulsionado em direção à luz terrena após completar os noves meses de gestação, Maria sentindo dores, as contrações cada vez mais próximas, até que a bolsa rompeu e Jesus foi expelido em direção ao mundo, sendo tomado pelas mãos calejadas de José, que envolveu a criança encharcada de sangue e plasma, em panos de linho rústico.

    Desliga a placenta, corta o cordão umbilical, depois dá uma palmada nas nádegas de Deus-menino para liberar o pulmão recolhido, o garoto executando um choro esganiçado que quebrou o silêncio da madrugada fria nas imediações da Belém adormecida.

    Jesus cresceu. Aprendeu a balbuciar as primeiras palavras, caiu muito até dar seu primeiro passinho firme. Teve sarampo, papeira, resfriado, e dor de barriga. Sentiu fome, frio e cansaço, tristeza e saudades intensas.

    Ouvia os ensinamentos dos pais, ia à sinagoga, aprendeu a decorar a Torah, e galgou todos os níveis do ensino rabínico com desenvoltura admirável. Sua prova final foi diante dos doutores da lei, aos doze anos de idade, no templo de Jerusalém, deixando os sábios fariseus embasbacados diante de tanta sabedoria.

    Paulo define a encarnação do Verbo como o termo esvaziar: …A Si mesmo se esvaziou… e isso é como um balão inflado que vai murchando até ficar vazio.

    Natal é a mais pura compreensão da encarnação de Deus. É Deus invadindo a história, entrando no portal do tempo e do espaço, levando chicotadas que deixou tiras de pele dependuradas de suas costas, carregando o peso da haste horizontal de uma cruz cheias de farpas agudas, e a dor indizível quando o pregaram na haste vertical e o penduraram entre o céu e a terra, até o derradeiro momento quando emitiu um brado gutural e gorgolejante, entregando o espírito.

    O autor aos hebreus declara que depois que efetuou o sacrifício eterno por nossos pecados, veio a tornar-se Sumo sacerdote que é capaz de se condoer de nossas fraquezas. A missão para Sua igreja é similar, consolai uns aos outros, sejam compassivos, e cheios de solidariedade com a fraqueza e desgraça dos outros.

    Isso é Natal. É a encarnação do Verbo de Deus gerando em nós o desafio da encarnação dos atos e dos gestos, do amor vivencial, mostrando a mesma compaixão, a solidariedade e serviço sacrificial que Jesus teve, agora, em pleno século XXI, sendo meros instrumentos que estendam as mãos aos rejeitados pela sociedade, aos aprisionados pelas garras da impiedade, criando oportunidades que diminuirão a dor e a fome dos que não terão nada no Natal, nem comida farta, nem presentes interessantes, nem dignidade, nem vergonha própria e que não restará mais nada, a não ser regar a mesa do Natal com o choro retido de quem não teve nenhuma chance na vida e nenhuma conquista na corrida por um lugar ao sol nesse triste e egoísta mundo dos homens de concorrência desleal e discriminatória.

    Este conteúdo foi enviado em terça-feira, dezembro 22nd, 2009 às 12:14 e está na categoria Destaques, Reflexões. Você pode acompanhar as respostas através do RSS 2.0 feed. Você pode deixar uma resposta, ou fazer um trackback de seu website
  • 4 Comentários

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    1. markeetooNo Gravatar
      dez 22nd

      É muito louco isso. E realmente não causa o impacto que deveria causar em nós o “esvaziamento” de Jesus.
      Em quanto Jesus dá esse exemplo, muitos de nós se infla e busca glória, reconhecimento e tantos outros “mimos”.

    2. Marilena SilvaNo Gravatar
      dez 22nd

      Conforme a gente vai lendo esse texto vai mexendo algo dentro de nós, é interessante isso. E esse desafio do natal de “vivenciar o amor” precisa realmente nos incomodar a fazer algo. Muito bom o texto.

    3. Micael Pinheiro SilvaNo Gravatar
      dez 23rd

      Belo texto. Que essa mensagem possa se fazer carne na nossa vida também. Principalmente, quando essa história tende a se perder diante de todo o ruído associado à festa do Natal.

    4. Rafael SizaNo Gravatar
      dez 24th

      Excelente texto. A ideia de um feriado global relembrando o Jesus “dos Cristãos” ficou isolada dentro das igrejas, passando a importar somente o consumismo – e em algumas outras, mais exclusivistas, a discussão “técnica” de seu nascimento. Optando pela prática mais simples, julgo ser mais importante a busca por uma consciência plena de que há um desafio para nós, como Corpo: reproduzir as atitudes maravilhosas de Jesus todos os dias.

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