Em atenção à finalidade precípua da universidade, Cristovam Buarque alerta que no momento histórico que vivemos, existem dois caminhos para a Universidade: tornar-se partícipe de uma “modernidade técnica excludente” ou contribuir para forjar “uma modernidade ética”, que teria como missão imediata “evitar a destruição do planeta e a exclusão social”.
Tornar-se parte de uma modernidade técnica excludente significa cultivar a formação de profissionais, sem se preocupar com o desenvolvimento humano, a inclusão e a mobilização social. É a manutenção do status quo, onde os pais que possuem boas condições financeiras contribuem para que seus filhos adquiram o conhecimento para que alcancem o mesmo patamar e posição que obtiveram. Essa modernidade é excludente porque utiliza o conhecimento e a técnica para separar os capazes e os incapazes, os competentes e incompetentes, os vencedores e os perdedores, ignorando que a educação tem um poder especial de transformar a sociedade, de moldar mentes e de repartir conhecimento.
Esse tipo de proposta epistemológica também provoca uma padronização do conhecimento, sem permitir que as individualidades contribuam para formar um mosaico de saberes, diversificado e heterogêneo. Uma imagem que ilustra isso muito é videoclipe da música Another Brick in the Wall (Um outro tijolo no muro) da banda inglesa Pink Floyd. Nela, os alunos aparecem como robôs produzidos em larga escala e o muro representa o sistema que oprime a individualidade humana. A mensagem é bem clara: somos apenas mais um tijolo no muro, não podemos ser diferentes, temos que agir como todo mundo.
Nesse sentido, há uma fala muito interessante no filme Simplesmente Feliz (Happy-Go-Luck) de Mike Leigh. Na cena, um instrutor de auto-escola (Eddie Marsan) fala para a aluna (Sally Hawkins) que o sistema de ensino não desenvolve o lado direito do cérebro das crianças. Ele explica, o lado esquerdo do cérebro é responsável pelo pensamento lógico, pelo raciocínio, por guardar dados e informação; mas o lado direito é a individualidade, a morada da alma, é o que nos torna únicos. Pois o sistema nos passa um ensinamento velado: “Eu lhe darei uma visão de mundo e, se você for capaz de repetir essa visão, de reafirmá-la, você passará nos exames e irá mais alto e alto e alto, será um bom profissional, feliz e bem sucedido; contudo, se você pensar por si mesmo, se você pensar de fora da caixa, então falhará e e será infeliz”. É uma mensagem dura, mas com certo fundo de verdade.
Dessa forma, Buarque está certo ao afirmar que esse tipo de modernidade leva à ruptura do conceito de semelhança dos seres humanos.
Em contrapartida, a modernidade ética para a universidade significa dialogar com a realidade, captar as necessidades e tendências e formar cidadãos com pensamento crítico e participação nas questões que concernem ao mundo. É investir em desenvolvimento sustentável, em que as pessoas podem consumir com responsabilidade, levando em conta as questões ambientais. É permitir que pessoas “fora do padrão” possam ter acesso e contribuir com seu tipo de conhecimento. É apostar na cooperação e no conhecimento compartilhado, aliado às facilidades que a era da informação nos traz.
Portanto, é essencial que a universidade esteja pronta para ir além de entregar profissionais para o mercado de trabalho, para que faça jus ao seu nome, que faz alusão ao universo de identidades, de personalidades, de conhecimento, calcando-se na realidade que se apresentada e buscando a excelência através de desenvolvimento social através de educação e pensamento crítico.




Muito interessante.
Eu concordo com o texto. É triste ver que pra sermos reconhecidos nesse mundo, precisamos entrar na esteira da produção em série de acadêmicos. Mas quem contesta isso logo é tido como louco, anarquista, ou sei lá o quê.
Me entristece ver que hoje até as crianças que de certa forma eram poupados desse sistema consumidor já vão sendo devidamente pressionadas e moldadas e vai se criando uma paranóia desde cedo para que passem no vestibular, pra “ser alguém”. Não estou dizendo que não devam fazer vestibular ou que buscar uma carreira “convencional” seja errado, só acho que muita gente erra o alvo porque isso não deveria ser um fim. O mundo carece de criatividade e de diversidade. Hoje em dia os mais criativos e cativantes estão na contramão desse sistema.
O filme Aprovados é uma comédia dessas bem bestas e um tanto engraçado, e um dos “professores” é um cara muito inteligente, mas que fala em outras palavras o que esse instrutor de auto-escola fala, e propõe um novo tipo de ensino. Talvez isso tudo seja uma utopia… estamos na era do “wiki” onde todos podem colaborar e contribuir de alguma forma. Isso pode trazer malefícios e benefícios. Como administrar isso?
Não acredito que este otimismo do Cristovam tenha fundamento.
As universidades estão condenadas a perderem completamente a utilidade. Serão parte do ensino “seriado” normal, e não mais um ambiente onde haja de fato uma qualificação diferenciada (principalmente no aspecto humanístico).
Se eu tivesse um filho hoje, ofereceria a ele pelo menos 10 opções alternativas ao vestibular. Por que ninguém precisa passar pelo funil cultural que estamos empurrando os jovens para poder ser bem sucedido na vida.
Excelente reflexão. Penso que um país amadurece com base na educação de seus cidadãos. É por isso que nos encontramos na situação caótica que estamos o ensino excludente só ampliando o fosso abissal que existe entre os aceitos e os não aceitos pela sociedade. Cursos profissionalizantes, técnicos e tantos outros deveriam ser igualmente aceitos, juntamente com os oferecidos para poucos pela universidade exclusivista.