• Reflexões

    Enviado em abril 30th, 2010

    Escrito por ocronico

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    Não espere amanhecer

    Sonhei com minha avó essa noite. Sonhei que ela dormia.

    Começaram as complicações na saúde da minha avó depois de uma noite comum. Com um AVC (Acidente Vascular Cerebral) o lado direito do corpo dela ficou paralisado. Dormiu a Maria forte e inquieta, acordou a Maria frágil, minha velha. Depois dessa noite, ela ficou com medo de dormir.

    Ver aquela senhora que criou seis filhos e um neto, foi atropelada por um caminhão com 60 e poucos anos, que teve mais 2 AVC’s depois do primeiro, naquele estado de dependência total, foi muito forte. Minha avó era uma velha com um mau-humor crônico e muito engraçado, de primeira qualidade. Por exemplo, no período em que fez fisioterapia, o rapaz que a ajudava, dizia: Dona Maria, só eu estou movimentando a sua perna com as minhas mãos. É a senhora que tem que mexer. E ela, já com sua voz falha: – Não! É você quem ganha pra isso. A ele só restou concordar.

    Minha avó era forte, dramática, chantagista, engraçada, gostava muito de dinheiro, gostava muito de brigar, era chata, implicante, amava e não dizia, era baixinha, falava palavrão e eu ria muito dela por tudo isso.

    No dia 23 de Setembro de 2009 ela dormiu e não acordou mais. Minha tia batendo na janela, me acordou dizendo: – Rodrigo, aconteceu.

    Pedi calma, me fiz de forte. E fui ajudar a resolver coisas do velório da minha avó. Como dói isso.

    Chorei como nunca na minha vida. E ainda choro. Dói de saudade. Foi eu quem fechou aquela janelinha do féretro. Fui o último a olhar o rosto dela. Rosto de missão cumprida. Rosto de “para de ser leso e não chora”.

    Acho uma pena ela não ter me visto entrar na Faculdade que eu sonhava entrar, ela queria tanto. É uma pena.

    Não sei por que escrever sobre isso e compartilhar aqui. Talvez pra dizer o que todo filho diz quando perde a mãe, ou o pai.

    – Dói muito. Dói de saudade. Vá e diga, enquanto puder, o que você tiver pra dizer. Não deixe amanhecer… Minha avó dormiu. Lembra? Na primeira vez, uma parte dela já não era ela. Na segunda, ela já não estava nela. E foi-se.

    Feito um passarinho. Ela até lembrava um passarinho, de pequena que era. Não cantava nada, mas lembrava muito. Saudade das suas implicâncias, do medo que ela tinha de que eu me tornasse coisa nenhuma. Sou coisa nenhuma hoje. Desculpa vó!

    Desejo, daqui a muitos e muitos bem vividos anos, dormir e não acordar aqui. Acordar com ela.

    Vá e diga. Não espere amanhecer.

    Perdoem o texto desconexo e pessoalíssimo.

    “Dentro de cada pessoa há um cantinho escondido decorado de saudade…” Marisa Monte

    Este conteúdo foi enviado em sexta-feira, abril 30th, 2010 às 20:33 e está na categoria Reflexões. Você pode acompanhar as respostas através do RSS 2.0 feed. Você pode deixar uma resposta, ou fazer um trackback de seu website
  • 2 Comentários

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    1. markeetooNo Gravatar
      abr 30th

      Tocante isso, cara.

    2. Marilena SilvaNo Gravatar
      mai 16th

      Também acho que não podemos perder tempo e precisamos verbalizar para as pessoas que amamos, com quem convivemos ou não, o quanto elas são importantes pra nós, e como as pequenas coisas com elas são importantes. Parabéns pelo texto.

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